Guerra a Mictian: relato curupi
Biblioteca Real de
Capão
Guilda dos Sábios
Sessão Proibida
Relato de viagem de
Alexander Huffman
Ano 509 da Era dos Seis
Dia 8 – Algum ponto da Floresta de Mundeo
Finalmente nós, da
guilda dos sábios, encontramos o chamado povo curupi. Quando acordamos de mais
uma noite quente, o acampamento estava cercado por essas criaturas estranhas e
curiosas.
Eles
apontavam lanças primitivas de madeira e a vários arco-e-flecha. Alguns estavam
montados em enormes javalis, como se fossem cavalos! Porém, diferentemente do
se fala na vila de Pauá e nos exércitos de Menosur, seus cabelos não são de
fogo, apesar de vermelhos como sangue e seus pés estão virados na direção
certa.
Eles
nos levaram por trilhas imperceptíveis à olhos humanos, em meio a densa
floresta até o lugar onde viviam: uma aldeia numa clareira há uma hora de
distância de onde estávamos, com [ilegível]
Os
curupis parecem ter grande admiração e curiosidade pelos objetos do mundo
civilizado. Eles cultuam novos deuses e nos contaram diversas histórias
referentes ao seu povo. Uma em particular chamou nossa atenção e parece se
referir a visão deles sobre o fim da Era de Mictian. Graças ao nosso
especialista em línguas primitivas e selvagens, transcreverei a história na
íntegra.
O
mundo era dominado pelo M’Kar (uma espécie de deus para eles) chamado Mictian
e seu exército de criaturas corrompidas. Os povos livres estavam cercados na
ilha de Anaan (atual Reino de Capão). Seu exército, em número de 100 mil
estavam espremidos entre a serra e o mar, ainda era menor que uma pequena parte
dos exércitos corrompidos de Mictian, com milhares de navios negros e tão
sinistros como seus tripulantes.
Junto
com eles vinha o próprio Mictian. O M’Kar tomara a forma de um gigante de pedra
com mais de duzentos pés de altura. Antes do ataque, Mictian cobriu a ilha com
uma sinistra nuvem negra, que transformara o dia em noite. Então seu exército
atacou. Centenas de milhares de Kurupis das Sombras desembarcaram no litoral da
ilha, sob uma chuva de flechas tão densa, quanto a própria nuvem do M’Kar.
O
sangue negro e fedorento daquelas criaturas corrompidas foi derramado nas águas
do mar de Bacucu (Mar Pequeno), tornando-as poluídas e venenosas por muito
tempo. Mas eles avançaram até se chocar violentamente contra a primeira fileira
do exército livre, como o mar revolto contra as rochas do litoral. Eles usavam
estranhas armas escuras e afiadas como espinho (metal) e avançavam como loucos
empurrados pelo terrível poder de Mictian.
Os
povos livres não seguravam mais e o massacre se tornou inevitável. Mictian pôs
seu primeiro pé na ilha e a terra tremeu violentamente e só sua presença matou
os mais fracos e colocou o terror no coração dos demais.
A
terra entre a serra e o mar já era um pântano de sangue. Memboré (o chefe dos
curupis) lutava bravamente em cima de seu javali gigante. Seu arco disparava constantemente,
matando todos os inimigos e ao seu redor os corpos se amontoavam. Quando lhe
restava apenas uma flecha, tirou sua machadinha de pedra do cinto e passou a
desferir golpes mortais para ambos os lados de seu animal, que também abatia os
corrompidos um a um.
Então,
de repente, Memboré sentiu que deveria sair dali e imediatamente instigou o
javali para fora da batalha. Sabia exatamente para onde deveria ir, só não
sabia o motivo. Avançou veloz como o vento para traz da linha do exército livre
e logo já estava subindo a grande serra. Seu animal tinha a mesma determinação
que ele, como se soubesse que o que estavam fazendo era importante.
O
som da guerra chegava terrível aos ouvidos do Memboré carregado pelo vento,
quando ele finalmente parou diante de uma caverna com a entrada pequena escondida
pela vegetação. Ele então rastejou para dentro daquele buraco fundo e continuou
a rastejar até que já não existia qualquer luz. Por trás da nuvem de Mictian, o
sol descreveu meio caminho no céu quando finalmente Memboré achou uma pequena
pedra prateada com um curioso brilho fosco e sabia que era o que procurava.
Mais
rápido que pôde ele rastejou de volta, montou em seu javali e rumou decidido
para a batalha. O restante do exército aliado já se encontrava no pé da serra,
espremidos pelo exército negro de Mictian e pelo próprio M’Kar.
Memboré
cruzou a fileira inimiga passando por cima de corpos mutilados enquanto seu
javali mordia e esmagava impiedosamente seus inimigos. Agora ele estava tão
perto do terrível M’Kar, como nenhum outro ser do povo livre havia chegado
antes. Seu corpo tremia e desejava fugir ou morrer, mas sua mente era forte.
Então ele amarrou a pedra na sua última flecha e atirou no mesmo momento em que
Mictian lhe encarava diretamente matando-o instantaneamente.
A
flecha coou como que guiada por uma força maior e cravou no coração do M’Kar.
Por um curto espaço de tempo nada aconteceu, até que todo corpo gigante daquele
poderoso ser foi sugado para dentro da pedra, tornando-se apenas uma sombra,
que fugiu e se refugiou nas cordilheiras que levam seu nome.
Seus
exércitos colapsaram, morreram, ou fugiram para se juntar ao exílio com seu
mestre derrotado. A pedra foi encontrada por outro memboré. Guiado pelo javali
gigante do herói morto, foi até a caverna onde a pedra fora encontrada e
devolveu ao local onde fora encontrada. Depois disso ele se matou e matou o
javali guerreiro, para que ninguém nunca mais a encontrasse.
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