segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Guerra a Mictian: relato curupi

                                                                                                              
Guerra a Mictian: relato curupi


Biblioteca Real de Capão
Guilda dos Sábios
Sessão Proibida

Relato de viagem de Alexander Huffman

Ano 509 da Era dos Seis

Dia 8 – Algum ponto da Floresta de Mundeo

         Finalmente nós, da guilda dos sábios, encontramos o chamado povo curupi. Quando acordamos de mais uma noite quente, o acampamento estava cercado por essas criaturas estranhas e curiosas.

Eles apontavam lanças primitivas de madeira e a vários arco-e-flecha. Alguns estavam montados em enormes javalis, como se fossem cavalos! Porém, diferentemente do se fala na vila de Pauá e nos exércitos de Menosur, seus cabelos não são de fogo, apesar de vermelhos como sangue e seus pés estão virados na direção certa.

Eles nos levaram por trilhas imperceptíveis à olhos humanos, em meio a densa floresta até o lugar onde viviam: uma aldeia numa clareira há uma hora de distância de onde estávamos, com [ilegível]

Os curupis parecem ter grande admiração e curiosidade pelos objetos do mundo civilizado. Eles cultuam novos deuses e nos contaram diversas histórias referentes ao seu povo. Uma em particular chamou nossa atenção e parece se referir a visão deles sobre o fim da Era de Mictian. Graças ao nosso especialista em línguas primitivas e selvagens, transcreverei a história na íntegra.

O mundo era dominado pelo M’Kar (uma espécie de deus para eles) chamado Mictian e seu exército de criaturas corrompidas. Os povos livres estavam cercados na ilha de Anaan (atual Reino de Capão). Seu exército, em número de 100 mil estavam espremidos entre a serra e o mar, ainda era menor que uma pequena parte dos exércitos corrompidos de Mictian, com milhares de navios negros e tão sinistros como seus tripulantes.

Junto com eles vinha o próprio Mictian. O M’Kar tomara a forma de um gigante de pedra com mais de duzentos pés de altura. Antes do ataque, Mictian cobriu a ilha com uma sinistra nuvem negra, que transformara o dia em noite. Então seu exército atacou. Centenas de milhares de Kurupis das Sombras desembarcaram no litoral da ilha, sob uma chuva de flechas tão densa, quanto a própria nuvem do M’Kar.

O sangue negro e fedorento daquelas criaturas corrompidas foi derramado nas águas do mar de Bacucu (Mar Pequeno), tornando-as poluídas e venenosas por muito tempo. Mas eles avançaram até se chocar violentamente contra a primeira fileira do exército livre, como o mar revolto contra as rochas do litoral. Eles usavam estranhas armas escuras e afiadas como espinho (metal) e avançavam como loucos empurrados pelo terrível poder de Mictian.

Os povos livres não seguravam mais e o massacre se tornou inevitável. Mictian pôs seu primeiro pé na ilha e a terra tremeu violentamente e só sua presença matou os mais fracos e colocou o terror no coração dos demais.

A terra entre a serra e o mar já era um pântano de sangue. Memboré (o chefe dos curupis) lutava bravamente em cima de seu javali gigante. Seu arco disparava constantemente, matando todos os inimigos e ao seu redor os corpos se amontoavam. Quando lhe restava apenas uma flecha, tirou sua machadinha de pedra do cinto e passou a desferir golpes mortais para ambos os lados de seu animal, que também abatia os corrompidos um a um.

Então, de repente, Memboré sentiu que deveria sair dali e imediatamente instigou o javali para fora da batalha. Sabia exatamente para onde deveria ir, só não sabia o motivo. Avançou veloz como o vento para traz da linha do exército livre e logo já estava subindo a grande serra. Seu animal tinha a mesma determinação que ele, como se soubesse que o que estavam fazendo era importante.

O som da guerra chegava terrível aos ouvidos do Memboré carregado pelo vento, quando ele finalmente parou diante de uma caverna com a entrada pequena escondida pela vegetação. Ele então rastejou para dentro daquele buraco fundo e continuou a rastejar até que já não existia qualquer luz. Por trás da nuvem de Mictian, o sol descreveu meio caminho no céu quando finalmente Memboré achou uma pequena pedra prateada com um curioso brilho fosco e sabia que era o que procurava.

Mais rápido que pôde ele rastejou de volta, montou em seu javali e rumou decidido para a batalha. O restante do exército aliado já se encontrava no pé da serra, espremidos pelo exército negro de Mictian e pelo próprio M’Kar.

Memboré cruzou a fileira inimiga passando por cima de corpos mutilados enquanto seu javali mordia e esmagava impiedosamente seus inimigos. Agora ele estava tão perto do terrível M’Kar, como nenhum outro ser do povo livre havia chegado antes. Seu corpo tremia e desejava fugir ou morrer, mas sua mente era forte. Então ele amarrou a pedra na sua última flecha e atirou no mesmo momento em que Mictian lhe encarava diretamente matando-o instantaneamente.

A flecha coou como que guiada por uma força maior e cravou no coração do M’Kar. Por um curto espaço de tempo nada aconteceu, até que todo corpo gigante daquele poderoso ser foi sugado para dentro da pedra, tornando-se apenas uma sombra, que fugiu e se refugiou nas cordilheiras que levam seu nome.

Seus exércitos colapsaram, morreram, ou fugiram para se juntar ao exílio com seu mestre derrotado. A pedra foi encontrada por outro memboré. Guiado pelo javali gigante do herói morto, foi até a caverna onde a pedra fora encontrada e devolveu ao local onde fora encontrada. Depois disso ele se matou e matou o javali guerreiro, para que ninguém nunca mais a encontrasse.


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