A
Criação, segundo a Religião dos Seis.
Nem
mesmo o mais absoluto vazio é completamente desprovido de tudo, por isso,
quando nada existia, já existia algo. Algo sem definição concreta, apenas um
conjunto de forças antagônicas, unidas em uma só para alcançar o equilíbrio.
Nem
o tempo, nem o espaço existiam, mas essas forças antagônicas conheceram seu
próprio desenvolvimento, sem nunca deixarem de ser uma coisa só. Assim surgiram
os deuses, representantes em essência de cada uma dessas forças, que buscam o
equilíbrio: deus Biquara é a força antagônica da deusa Emi; deus Ausûb é a
força antagônica da deusa Açã; deus Orube é a força antagônica do deus Jurere.
Esses
deuses não eram somente antagônicos a um dos deuses, como também distintos
entre si. Seus poderes eram inimagináveis e a existência no vazio tornou-se
insuficiente para essas forças. Então os deuses criaram! E surgiu o homem! Essa
criatura nova era a reprodução física das forças dos deuses em um ser. Dessa
forma, transposto para a materialidade e para o homem, a força desses deuses
também ganhou definição: Biquara é o deus da consciência; Emi a deusa da
vontade; Ausûb o deus do amor; Açã a deusa do ódio; Orube o deus da felicidade
e Jurere o deus da tristeza.
O
homem, criação dos deuses, com as forças essenciais dentro de si em busca de
equilíbrio era tão perfeito, que os deuses lhe presentearam criando Ibi, um
lugar onde ele pudesse habitar. Em Ibi criaram rios, mares, montanhas,
desertos, campos, além de todo tipo de criaturas e plantas. Tudo era perfeito
no mundo criado para o homem.
Mas
então o impensável aconteceu. As forças dos deuses eram dependentes do
equilíbrio entre si, mas Emi e Açã deixaram que a força essencial delas se
tornassem absolutas em seu próprio ser e juntas decidiram fazer uma criação só
delas. Assim surgiu a mulher, que dentro de si detinha somente o “ódio” e a “vontade”
de suas deusas criadoras.
Biquara
descobriu a traição e se levantou contra as deusas, liderando os demais deuses.
Houve guerra e dessa guerra surgiram as estrelas, como faísca das armas que se
chocavam. O equilíbrio estava quebrado e a própria essência existencial dos
deuses, que são um só, se desfez. Suas criações sofriam e tudo que há de ruim
em Ibi surgiu nesse período. Os deuses estavam se destruindo.
Foi
então que Ausûb, deus do amor, propôs uma trégua. No acordo entre os deuses
ficou definido que a mulher, criação de Emi e Açã, seriam aceitas e
incorporadas à Ibi integralmente, mas para isso os demais deuses dariam à nova
criação sua própria força essencial. Ainda assim, a corrupção de Emi e Açã era
grande e suas forças predominavam na mulher. E por isso coube ao homem, criação
conjunta dos seis, governar a mulher e a tudo em Ibi.
Essa
junção do homem com a mulher gerou um fruto e seus descendentes começaram a
ocupar toda Ibi. Diante dessa nova realidade, os deuses criaram o tempo e com o
tempo, criaram a morte. Surgia também o dia e a noite.
A
criação estava quase completa. Mas os Seis temeram que os descendentes de sua
criação estavam se afastando dos deuses então resolveram fazer de suas forças
uma constante presença em Ibi. Surgiam assim os períodos anuais. Cada período
duraria noventa dias e noventa noites e seria dado aos deuses para que fizessem
sua força essencial ser sentida na terra. Para Açã e Emi, como punição da
antiga traição, foram dados apenas trinta dias para cada uma e Jurere, deus da
tristeza, quis poupar a humanidade de sua própria força e ficou com apenas
trinta dias e trinta noites para si. Dessa forma foi criado o ciclo anual, que
se iniciaria com Biquara. O deus fez de sua força um tempo fresco e ventoso,
perfeito para reflexão. Seria seguido por Açã e depois Emi, juntas fizeram de
seus dias um tempo frio e pobre. Jurere terminava o período frio com seus
trinta dias e seria seguido por Orube, que esquentaria o tempo e encheria tudo
com flores coloridas para alegrar o coração de suas criações. Ausûb fecha o
ciclo anual com um período quente como só o amor de sua essência pode ser.
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